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Saber (e) usarAutor: Eduardo Maçanmacan@debian.org 01/11/2001 Dois fatos recentes na minha vida diária me chamaram a atenção. Um advogado conhecido meu me perguntou sobre o "Linux"; em determinado momento ele comentou: “dizem que ele é mais difícil”, ao que instintivamente intervi: “mais difícil não, ele é mais sofisticado”. Outro foi um e-mail do médico do meu filho contando que tinha visitado o stand da Conectiva na Comdex e queria instalar o GNU/Linux no micro do consultório, "fiquei realmente impressionado e comprei a idéia" ele escreveu. Ambos fazem parte de um universo que infelizmente tem sido forçado a se encolher. Quinze anos atrás era freqüente abrirmos uma revista de informática e encontrar programas feitos por médicos, advogados e outros profissionais. Naquela época, todos os sistemas operacionais vinham com uma linguagem de programação, em geral uma variante de BASIC. As pessoas começavam a programar, simplesmente porque tinham como. A constante retirada de funcionalidade em nome de uma suposta “simplicidade” tem efeitos negativos sobre o conhecimento médio da população de usuários. Se por um lado toma o sistema mais simples para aqueles que não têm aptidão para a informática impede os que têm de progredir, simplesmente por não ter o que explorar. Hoje, com sistemas baseados em GNU/Linux, vivemos algo sem precedentes na indústria da informática, contamos com um sistema que pode ser personalizado de modo a apresentar tanta funcionalidade quanto desejemos. Podemos com o mesmo sistema operacional atender à secretária que precisa digitar um texto e ao empreendedor que quer montar um site de ecommerce na lnternet. Aliás, os que não acreditam no uso de GNU/Linux por secretárias dificilmente lembram que não é a secretária quem instala, configura e gerencia o sistema operacional, que ela nunca vai precisar saber o que é uma partição de disco ou um grupo de usuários, que ela precisa apenas clicar nos ícones e editar o seu texto. Temos o KDE e o Gnome que não deixam nada a desejar neste ramo. E falando em editores de textos será que é tão diferente assim usar o Word ou o Star Office? Tanto no Word, quanto no Star Office (ou no Abiword, que eu adoro), a mudança do tamanho de uma fonte ou a centralização de um texto pode ser feito da mesma maneira; quando muito, os botões estão em lugares diferentes. Mas aprender a usar um computador não é decorar onde estão os botões e sim saber quais as funcionalidades genéricas disponíveis. Sabendo o que todo editor de textos faz, aprender a usar um novo editor de textos é questão de minutos de exploração e algumas horas de prática. Há algum tempo deixamos de ensinar informática e passamos a treinar pessoas para usar produtos. Ser treinado é muito diferente de aprender. Uma pessoa que aprendeu a usar editores de texto desenvolve intuição suficiente para usar qualquer editor de textos. Uma pessoa que foi treinada a usar um produto sentirá muita dificuldade, até desconforto ou medo, de usar outro. O mero treinamento limita nas pessoas uma capacidade muito desejada no mercado de trabalho nos dias de hoje: a versatilidade. No treinamento do uso de determinados produtos, ao invés de ensinar informática, estamos criando profissionais que não terão capacidade de se adaptar sozinhos a novas tendências. E não estamos falando de artesanato com argila, cujas técnicas são aproximadamente as mesmas há centenas de anos; estamos falando de uma realidade que nos empurra novas tendências a cada 3 meses. É muito limitada a visão daqueles que acham que treinar pessoas em escolas para usar o produto mais usado pelo mercado hoje vai realmente contribuir em algo para sua vida profissional. Há aqueles que acreditam no condicionamento ao uso como método de ensino. Ou lhes falta o conhecimento da causa ou sobram os interesses. Novembro/2001 |
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