|
FISL nove ponto zero, abril de dois mil e oito.06/05/2008Abrem-se as portas para a nona edição do Fórum Internacional de Software Livre (FISL), Porto Alegre(RS), 17 a 19 de Abril de 2008, em instantes os corredores são tomados pela massa de quase 7 mil nerds sedentos por informação,pelo encontro das comunidades,com os ídolos e com as novidades no maior evento de Software Livre das Américas e um dos maiores do planeta.
Creio que podemos dividir a análise do evento pelas áreas de interesse, pois apesar delas interagirem entre si são sempre o foco de todas as ações e reações do evento, as áreas específicas são as Empresas, a Comunidade, o Governo e finalmente o Temário (Palestras).
Empresas A participação das empresas no FISL sempre foi questionada pela mídia especializada, que acha que existe pouco interesse das maiores empresas de TI no evento, o que mostra a baixa penetração do Código Aberto no ambiente corporativo. Porém essa visão não condiz plenamente com a realidade quando se sabe que a geração de negócios não é uma das premissas do evento.
Apesar disso na 9ª edição do FISL podemos destacar a presença da SUN, INTEL, GOOGLE, GLOBO,UOL, TERRA, LOCAWEB, POWERLOGIC, TROLLTECH e YAHOO BRASIL, entre outras empresas presentes.
Algumas dessas empresas estão investindo pesado na mudança de seu modelo de negócios, como é o caso da SUN, que está gradativamente abrindo seus códigos e focando seus negócios no modelo de Código Aberto, onde os serviços são o pilar de sustentação da empresa. Para que isso aconteça ela conta muito com a integração com a comunidade, que ao adotar suas soluções contribui com a evolução dos produtos e também age como agente de negócios, utilizando os códigos e gerando novas demandas. Isso tudo aliado a maciça presença da instituições públicas presentes ao evento justificam a presença dos desenvolvedores estrangeiros e a acessibilidade de todos durante o evento.
Já empresas como a Globo, o terra e o UOL se esforçaram para mostrar que quase toda a infra-estrutura tecnológica de seus serviços é totalmente baseada em soluções de Código Aberto. A Globo afirma inclusive que as votações do Big Brother são gerenciadas somente por softwares livres. Mas qual o objetivo principal dessas empresas no evento? Simplesmente atrair interessados em trabalhar na empresa, todas estavam ali para receber curriculum e observar os participantes. É lógico que se a infra-estrutura deles é toda baseada em Código Aberto não existe lugar melhor para se encontrar profissionais de alto nível do que o FISL. Mesmo que estes profissionais ainda não tenham sequer concluído o ensino médio.
Nesse quesito destaque para o Google, seu stand foi um dos mais concorridos do evento, graças a admiração que o público nerd tem pela empresa, que aparentemente é recíproca, já que a empresa dava uma camiseta para quem deixasse o curriculum no stand. Mais uma prova que o evento está se tornando uma mina de ouro para o RH das empresas mais inovadoras na área de TI.
A realização da Arena de Programação, que acontece dentro do evento, com desafios para equipes de programadores premiando os vencedores com aparelhos tecnológicos de última geração também é uma fonte de mão de obra altamente especializada para as empresas.
Mais que vender algo, as empresas já perceberam que o evento pode render outros frutos, é quase que uma colheita de cérebros novos e fresquinhos, mas que já vem recheados de informação e com capacidades quase ilimitadas de evolução.
Claro que algumas empresas estavam ali para demonstrar seus produtos e tentar alavancar negócios, como o caso da Locaweb, parceira declarada da Microsoft mas que fornece serviços de hospedagem Linux. Mas também recebia curriculum de qualquer um dos presentes sem pestanejar.
Comunidade A comunidade, como sempre, é praticamente um evento dentro de outro. A área reservada aos grupos de usuários é o centro das atenções, o ponto central de encontro do evento. Ali, sentados ou deitados no chão, estão grupos tão diversificados tanto geográfica quanto culturalmente, mas com os mesmos interesses e objetivos.
Não importa qual o ramo do movimento ao qual pertencem, se são hackers, usuários ou colaboradores, se gostam mais da distro A ou da distro B, se desenvolvem um banco de dados ou outro, nada disso interessa, eles convivem harmonicamente lado a lado, diria mais, em determinados momentos a integração é tanta que você não distingue mais quem é do grupo A ou B, todos se integram em um grupo único, que está em sintonia em harmonia e que simplesmente está refletindo naquele local a integração constante que encontra através da Internet. Uma representação física e real do movimento de Software Livre, do conceito de comunidade, de compartilhamento e de liberdade de escolha e de expressão.
Como sempre estavam presentes as comunidades Debian, Fedora, Slackware, Ubuntu, OpenSuSe, OpenDocument, Asterisk, dentre outras, e agitaram muito. O pessoal do Debian aproveitou para fazer um apitaço e comemorar com bolo e chapeuzinho a aniversário de 15 anos do projeto.
A Red Hat não estava presente com stand, mas um representante da empresa justificou a opção de ao invés de se investir R$ 30 mil em patrocínio e stand usar os recursos para levar ao FISL 30 membros da comunidade Fedora, projeto livre apoiado e alavancado pela empresa. Concordei com ele de que a estratégia foi muito boa.
Destaque também para o Colégio Marista, que apesar de ser patrocinador ouro do evento estava com stand ao lado da área das comunidades e levou ao FISL a inovação e a garotada. No stand eram apresentadas invenções e projetos dos alunos da instituição, haviam diversos robôs e sistemas adaptados, foi realmente motivador.
Ao longo do evento, mas principalmente no último dia, era possível se deparar com grupos cansados, literalmente jogados no chão, alguns em sono profundo. Mas todos estampavam um sorriso de satisfação e a certeza de que, se possível, estarão presentes na próxima edição do FISL.
Novamente o Governo Federal dominou os stands e as cotas de patrocínio do Fórum Internacional de Software Livre, para desespero e destempero de parte da comunidade brasileira de Software Livre. Vamos a lista:
Esfera Federal: Serpro, Dataprev, Caixa, Banco do Brasil, Ministérios do Planejamento, Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia, Comunicações e Saúde, Petrobrás, Correios, Casa Brasil, Cobra Tecnologia e Comitê Gestor da Internet (CGI.br).
Esfera Estadual: CELEPAR (estado do Paraná)
Municipal: PROCEMPA
Realmente é um grupo de peso, não é preciso pensar muito para descobrir que se todo esse pessoal é patrocinador do evento podemos considerar que a grande maioria do FISL é bancada pelo Governo Federal. Muita gente acha isso um absurdo, porém para a maioria dessas instituições essa é a única forma de retribuir um pouco do que conseguiram evoluir e economizar com tecnologia através do uso de Software Livre.
O exemplo do CACIC é ainda mais impactante, pois é um software público que se tornou GPL e atravessou fronteiras, hoje é conhecido e utilizado em muitos paises, mas o mais importante é que se tornou uma fonte de recursos para mais de 700 empresas privadas que prestam serviços ou fornecem suporte no sistema.
Muitas das instituições presentes porém estão ali com o intuito de manterem viva uma corrida que começou no governo Lula, um ranking informal que envolve a disputa sobre qual o órgão que mais consegue avançar no uso do Software Livre, de quem tem mais, de quem mais economizou recursos com a adoção de SL, etc. São mais posições políticas de que de apoio ao Software Livre.
Agregado a isso ainda existem pessoas que se utilizam dos projetos do Governo Federal para autopromoção, movem céus e terras para estar presentes no evento e ter a oportunidade de divulgar suas iniciativas, mostrarem o quanto elas conseguiram fazer suas instituições avançar, sabedores que a meritocracia é uma das vertentes mais importantes da comunidade conseguem ser aclamados como ícones do Software Livre.
Destaque para o lançamento do SAGUI pelo SERPRO, que permite gerenciar a configuração e os aplicativos de estações desktop Linux a partir de um único ponto, para a oficina GINGA de vídeo digital e para o sistema Invesalius de administração hospitalar.
É bom saber que algumas iniciativas estão dando resultado e fazendo com que o Software Livre crie raízes sólidas em alguns órgãos, pois única garantia de continuidade das soluções é a desvinculação da política e o fortalecimento da parte técnica e da utilidade de seus produtos, quanto mais a adoção e o uso avançarem maior será a dificuldade em algum momento futuro de se cogitar sua desativação ou substituição.
Palestras Foram mais de 200 sessões de palestras e debates divididas em 25 trilhas, que são como são chamadas as áreas de interesse no FISL e que facilitam muito a vida dos participantes, que tem como listas e analisar a seqüências de palestras dentro de suas áreas de interesse.
Este ano houve uma mudança no processo de votação para eleição das palestras, anteriormente somente os membros da comunidade cadastrados no sistema de temário do FISL podiam votar, os cadastros de novos integrantes era fechado. Nesse ano houve a abertura para que todos os interessados se inscrevessem e tivessem a oportunidade de ajudar e eleger as palestras de maior interesse. O ponto positivo foi o aumento da participação e da transparência, porém o lado negativo é que foram eleitas algumas palestras de baixo nível técnico o que acabou frustrando alguns presentes.
No geral as palestras foram boas, mas nesse ano a reclamação quento a qualidade foi mais contundente e mais ouvida pelos corredores do Fórum. Acredito que para a próxima edição muitas coisas serão corrigidas e teremos um temário mais condizente com as expectativas da comunidade, ao menos em algumas trilhas.
FISL 10.0 O ano de 2009 marcará a décima edição do Fórum Internacional de Software Livre, um marco histórico e que já gera muita expectativa de todos, pois é importante acima de tudo ter a consciência da enorme dificuldade de se organizar um evento desse porte durante 10 anos, com tantas variações políticas e de humor dos mercados, além de ser um movimento altamente visado e combatido. Realmente é importante se destacar e louvar 10 realizações do evento.
Espero poder estar presente novamente nessa que podemos dizer será a edição de aniversário do FISL, vale lembrar que estive presente em todas as outras 9 versões, não será dessa vez que não estarei presente, pois além de comemorar a edição dourada do FISL ainda teremos a oportunidade de ajudar a melhorar o evento, tornando a edição mais aderente aos anseios da maioria, pois a todos é impossível satisfazer simultâneamente.
Até lá então. José Luis Pissin – Abril/2008 |
|
|
|
Desenvolvido por Aware |